Moçambique enfrenta um novo capítulo de pressão económica. A partir de 7 de Maio de 2026, os moçambicanos confrontaram-se com novos preços dos combustíveis aprovados pelo Conselho de Ministros na sua 12.ª Sessão Ordinária, com a gasolina a subir para 93,86 meticais por litro e o gasóleo a atingir 116,25 meticais por litro, uma actualização que, segundo os operadores do sector turístico, não ficará confinada aos postos de abastecimento.
A decisão do Executivo foi justificada pela necessidade de acompanhar a escalada dos preços do petróleo no mercado internacional, fortemente influenciada pela instabilidade geopolítica no Médio Oriente, com cerca de 80% das importações de combustíveis de Moçambique a transitarem pelo Estreito de Ormuz. O impacto, contudo, estende-se muito para além da bomba de gasolina e é precisamente isso que preocupa os operadores turísticos.
Muhammad Abdullah, director-executivo da Cotur, porventura a mais representativa agência de viagens em Moçambique, não hesita na avaliação: o aumento dos combustíveis poderá condicionar a recuperação e o crescimento do turismo nacional, ao pressionar os custos da mobilidade e toda a cadeia de valor do sector.
Em entrevista ao Diário Económico, Abdullah traçou com clareza o mecanismo de transmissão do choque energético para o turismo: "A subida dos combustíveis representa, sem dúvida, uma das maiores preocupações actuais para o sector. O turismo depende muito da mobilidade: transporte aéreo, terrestre, marítimo, transfers, excursões, logística hoteleira e abastecimento. Quando o combustível sobe, praticamente toda a cadeia de valor turística é pressionada."
Esta análise é corroborada pela realidade económica recente. O transporte é apenas a primeira camada de impacto: a segunda, mais silenciosa e mais perigosa, é o preço dos bens essenciais, que saem das zonas de produção, passam por intermediários, percorrem estradas, pagam frete, descarregamento e armazenagem e se cada etapa fica mais cara, o preço final sobe inevitavelmente. Para o turismo, este efeito em cascata é particularmente sensível, pois o visitante internacional compara preços com outros destinos concorrentes em tempo real.
O responsável admite que os custos acrescidos tenderão a reflectir-se nos preços pagos pelos turistas: "As empresas poderão tentar absorver parte dos custos, mas, quando os aumentos são significativos e prolongados, uma parte acaba inevitavelmente por ser reflectida nos preços finais. Isto pode acontecer nas passagens aéreas, nos transfers, nos pacotes turísticos, nas excursões e até nos serviços hoteleiros."
Um dos pontos mais preocupantes levantados por Abdullah diz respeito à acessibilidade dos destinos turísticos moçambicanos. Na sua perspectiva, existe o risco real de alguns destinos perderem atractividade, "sobretudo aqueles que dependem de deslocações terrestres mais longas ou de ligações aéreas mais dispendiosas".
"Moçambique tem destinos extraordinários, mas muitos deles exigem logística complexa. Se o custo de acesso aumentar demasiado, alguns turistas poderão optar por destinos concorrentes mais fáceis ou mais baratos", alertou o responsável da Cotur.
Esta preocupação ganha maior peso quando se considera que a forte dependência de Moçambique da importação de combustíveis evidencia uma fragilidade estrutural persistente, que deixa o país exposto às oscilações do mercado global e limita a margem de manobra interna em momentos de crise internacional.
Abdullah sublinha que o turismo não é um sector isolado e que, por isso, os seus problemas têm consequências que se estendem muito além dos hotéis e das agências de viagens. "O turismo é um sector transversal. Quando há redução da procura, o impacto não fica apenas nos hotéis ou nas agências de viagens. Afecta transportadores, guias, restaurantes, fornecedores, artesãos, comunidades locais e pequenas empresas."
O director-executivo da Cotur vai mais longe na sua análise: "Se os custos continuarem a subir, poderá haver menor rentabilidade, redução de investimento, pressão sobre postos de trabalho e menor contribuição do turismo para a economia nacional." Numa economia em recuperação, estes sinais são de particular gravidade.
Questionado directamente sobre o impacto do aumento dos combustíveis nas perspectivas turísticas para 2026, Abdullah foi assertivo: "Sim, poderá afectar. O turismo moçambicano tem enorme potencial e vinha numa trajectória de recuperação e crescimento, mas o aumento dos combustíveis pode travar esse ritmo."
Este cenário de cautela contrasta com os esforços institucionais em curso. O Governo aprovou recentemente a criação da ANDITUR, uma nova agência nacional desenhada para captar investimentos e profissionalizar o turismo em Moçambique, bem como o projecto PREPT-MOZ, que visa transformar monumentos e património histórico em activos geradores de receitas e emprego. Iniciativas positivas que, no entanto, correm o risco de ver o seu impacto limitado pela pressão dos custos energéticos.
Abdullah alerta ainda para uma dimensão frequentemente subestimada: o risco de perda de competitividade internacional. "Moçambique tem vantagens muito fortes: praias únicas, cultura, natureza, gastronomia, hospitalidade e uma localização estratégica. Mas compete com países que têm maior conectividade aérea, infra-estruturas turísticas mais consolidadas e, em alguns casos, custos logísticos mais previsíveis."
A conclusão é directa: "Se os custos internos aumentarem demasiado, Moçambique pode perder competitividade, não por falta de beleza ou potencial, mas por encarecimento do acesso e da operação."
Para fazer face ao cenário adverso, o director-executivo da Cotur defende uma resposta coordenada entre o sector público e o privado, com medidas concretas de apoio ao turismo. Na sua perspectiva, o Governo deveria: criar incentivos temporários para empresas turísticas formais; melhorar a conectividade aérea; reduzir custos operacionais; facilitar a emissão de vistos; reforçar a promoção internacional; e apoiar a mobilidade para destinos prioritários.
"O turismo gera divisas, emprego e imagem positiva para o país, por isso deve ser protegido", defendeu Abdullah, apelando a que o Governo trate o turismo "como um sector estratégico de exportação".
A médio prazo, a redução da vulnerabilidade ao preço internacional do petróleo passa por melhorar o transporte público, acelerar alternativas energéticas onde viável, investir em logística ferroviária e marítima, melhorar estradas produtivas, apoiar cadeias curtas de abastecimento e promover maior eficiência energética. Medidas estruturais que, a concretizarem-se, beneficiarão directamente o turismo.
Apesar do tom de alerta, Muhammad Abdullah não fecha a porta ao optimismo. A sua visão sobre o futuro do turismo moçambicano é de esperança, mas de esperança condicionada à acção. "Se a tendência se mantiver, o sector terá de operar num ambiente mais difícil. Os preços poderão subir, as margens poderão cair e alguns destinos poderão sentir maior pressão. Ainda assim, continuo optimista quanto ao futuro do turismo moçambicano. O potencial do País é enorme, mas será necessário agir com estratégia, coordenação e sentido de urgência."
A mensagem final do responsável da Cotur é clara: Moçambique tem tudo para ser um destino de excelência, mas o combustível que alimenta esse sonho não pode ser apenas o que sai dos depósitos. É preciso vontade política, parceria público-privada e uma visão estratégica que coloque o turismo no centro do desenvolvimento económico nacional.
Fontes:Miramar News
