Pelo menos 64 pessoas morreram desde meados de junho em consequência dos confrontos entre grupos armados insurgentes e as forças de defesa de Moçambique e do Ruanda, na floresta de Catupa, distrito de Macomia, província de Cabo Delgado. Os dados constam de um relatório divulgado pela organização ACLED (Armed Conflict Location & Event Data) e consultado pela agência Lusa, revelando que a ofensiva militar continua intensa numa das regiões mais afetadas pela insurgência no norte do país.
Segundo o relatório, as operações militares ganharam novo impulso durante o mês de julho, com o objetivo de recuperar o controlo da floresta de Catupa, apontada como um dos mais importantes redutos do grupo insurgente associado ao chamado Estado Islâmico em Moçambique (EIM). A área é considerada estratégica pelos grupos armados devido à sua extensa cobertura florestal, que facilita a mobilidade e dificulta o avanço das forças de segurança.
Entre os dias 5 e 12 de julho, os confrontos terão provocado pelo menos 20 mortos, embora fontes locais citadas pela ACLED indiquem que o número real de vítimas poderá ser superior ao registado oficialmente. A organização observa que a dificuldade de acesso às zonas de combate impede uma verificação independente e imediata do total de mortos e feridos.
O documento refere que os principais combates ocorreram nas localidades de Catupa, Namabo e Cogolo, envolvendo elementos das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM) e militares da Força de Defesa do Ruanda (RDF), que desde 2021 apoiam o país no combate à insurgência.
Apesar da intensificação das operações, a ACLED considera que os insurgentes continuam a manter uma presença significativa na floresta de Catupa. Segundo a organização, várias tentativas anteriores de expulsar definitivamente os combatentes da região não produziram os resultados esperados, permitindo ao grupo reorganizar-se e manter capacidade operacional.
Além dos confrontos em Macomia, o relatório alerta para um movimento crescente dos insurgentes em direção ao sul da província de Cabo Delgado.
De acordo com a ACLED, os combatentes têm atravessado os distritos de Quissanga, Mecúfi, Meluco, Ancuabe, Chiúre e Montepuez, onde são apontados como responsáveis por ataques contra civis, sequestros, extorsões e recrutamento forçado.
As zonas de mineração artesanal de ouro surgem entre os principais alvos dos grupos armados, que procuram obter financiamento através da cobrança de resgates e da exploração ilegal de recursos minerais.
No distrito de Ancuabe, o relatório documenta casos de sequestro em pelo menos dois locais de mineração artesanal durante o mês de julho.
Segundo a organização, várias vítimas permaneceram em cativeiro até que familiares ou empregadores pagassem resgates que chegaram aos 60 mil meticais por pessoa. Outras pessoas, de acordo com o documento, terão sido obrigadas a integrar os grupos insurgentes, numa prática que continua a preocupar organizações humanitárias e autoridades locais.
Outro episódio destacado pela ACLED ocorreu no dia 26 de julho, quando insurgentes terão intercetado três viaturas na estrada R698, entre os distritos de Montepuez e Mueda, nas proximidades da aldeia de Nicocue.
Segundo o relatório, passageiros e veículos foram retidos pelos combatentes, sendo posteriormente libertados apenas após o pagamento de resgates estimados em cerca de 389 mil meticais. Pelo menos dez pessoas terão recuperado a liberdade após as negociações.
Casos semelhantes têm sido registados em diferentes pontos da província, aumentando o receio entre transportadores, comerciantes e residentes que utilizam as principais vias de circulação.
A insurgência em Cabo Delgado teve início em 2017 e provocou milhares de mortes, além do deslocamento de centenas de milhares de pessoas. Embora as operações conjuntas das forças moçambicanas, ruandesas e da missão regional da SADC tenham permitido recuperar várias localidades anteriormente ocupadas pelos insurgentes, relatórios recentes indicam que os grupos armados continuam ativos e adaptam constantemente as suas estratégias.
A ACLED conclui que a persistência dos confrontos e a expansão das ações insurgentes para novas áreas demonstram que o conflito permanece longe de uma solução definitiva. A organização recomenda o reforço das medidas de proteção das populações civis e a continuidade dos esforços de estabilização, enquanto as autoridades prosseguem as operações militares para conter a violência na província de Cabo Delgado.
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