Estrangeiros foram embora, mas os empregos não apareceram na África do Sul

 
A saída de estrangeiros da África do Sul não produziu a solução rápida para o desemprego que alguns movimentos xenófobos prometiam. Apesar da pressão sobre imigrantes, das deportações e do aumento de discursos contra cidadãos de outros países africanos, a crise de emprego continua a representar um dos maiores desafios sociais e económicos do país.

Durante meses, ganhou força entre determinados sectores da sociedade sul-africana a ideia de que estrangeiros estariam a ocupar postos de trabalho que deveriam pertencer aos cidadãos nacionais. Malauianos, zimbabuanos, moçambicanos, nigerianos, ganeses e pessoas de outras nacionalidades africanas passaram a ser apontados como responsáveis por dificuldades que, na realidade, têm raízes muito mais profundas.

A narrativa era simples: retirar os estrangeiros do mercado de trabalho permitiria aos sul-africanos encontrar emprego com maior facilidade.

Mas a realidade económica revelou-se muito mais complexa.

A África do Sul possui uma das taxas de desemprego mais elevadas entre as grandes economias do mundo, com os jovens particularmente afectados. A falta de oportunidades não resulta apenas da presença de trabalhadores estrangeiros, mas de uma combinação de factores económicos, sociais e estruturais.

O crescimento económico insuficiente, as dificuldades enfrentadas por empresas, a desigualdade, os problemas de qualificação profissional e a incapacidade de criar empregos em quantidade suficiente ajudam a explicar por que razão milhões de pessoas continuam sem trabalho.

É precisamente neste ponto que a discussão sobre imigração precisa de ser separada da discussão sobre emprego.

Um trabalhador estrangeiro que vende produtos numa pequena banca, trabalha na construção civil, presta serviços ou participa no comércio informal não possui, por si só, capacidade para resolver ou provocar uma crise nacional de emprego.

Da mesma forma, a sua saída não significa automaticamente que aquele posto de trabalho será ocupado por um sul-africano.

Um dos maiores problemas da retórica xenófoba é transformar uma questão económica complexa numa disputa entre indivíduos.

Quando uma loja pertencente a um imigrante é destruída ou quando um trabalhador estrangeiro é obrigado a abandonar uma comunidade, não nasce automaticamente uma nova empresa no local.

Quando um comerciante zimbabuano deixa de trabalhar, isso não significa que uma fábrica sul-africana será construída.

Quando um vendedor malauiano deixa uma rua, isso não cria, por si só, um emprego formal para um jovem desempregado.

A criação de empregos depende de investimento, crescimento económico, empresas competitivas, infraestruturas, educação, formação profissional e políticas públicas capazes de estimular a actividade produtiva.

É por isso que a xenofobia não pode ser confundida com política económica.

Isso não significa que a África do Sul não tenha o direito de controlar as suas fronteiras.Tem.

Um Estado soberano pode estabelecer regras para entrada, permanência e trabalho de cidadãos estrangeiros. A imigração irregular também pode e deve ser combatida pelas autoridades quando viola a legislação nacional.

O problema surge quando a aplicação das leis migratórias é transformada numa campanha generalizada contra estrangeiros.

Existe uma diferença fundamental entre combater a imigração irregular e responsabilizar uma nacionalidade inteira pelos problemas económicos de um país.

Um governo pode reforçar as fronteiras, fiscalizar documentos e combater redes de tráfico de pessoas sem permitir que trabalhadores estrangeiros sejam tratados como inimigos.

A questão central para milhões de sul-africanos não é simplesmente quem está a ocupar determinado emprego.

É saber por que razão existem tão poucos empregos disponíveis.

Um jovem que termina a escola ou a universidade e permanece meses ou anos sem conseguir trabalho enfrenta um problema que não desaparece simplesmente porque um estrangeiro deixou o país.

Esse jovem precisa de uma economia capaz de absorver novos trabalhadores.

Precisa de empresas que estejam a contratar.

Precisa de formação adequada às necessidades do mercado.

Precisa de acesso a financiamento quando pretende criar um pequeno negócio.

E precisa de um ambiente económico no qual investir e produzir seja mais fácil.

Sem essas condições, a expulsão de estrangeiros pode apenas criar a ilusão de que uma solução está a ser aplicada.

A experiência sul-africana também levanta uma questão mais ampla sobre o continente africano.

Durante décadas, as fronteiras africanas foram determinadas por processos históricos que separaram comunidades, povos e famílias. Hoje, milhões de africanos atravessam essas fronteiras em busca de trabalho, segurança, educação e melhores condições de vida.

Zimbabuanos procuram oportunidades na África do Sul.

Moçambicanos atravessam fronteiras para trabalhar.

Malauianos procuram mercados onde possam sustentar as suas famílias.

Nigerianos e ganeses participam em diferentes sectores económicos.

Essa circulação não elimina a necessidade de regras migratórias. Mas mostra que a migração africana é também uma realidade económica e social profundamente ligada às desigualdades existentes no continente.

Transformar esses trabalhadores em culpados pela pobreza pode ser politicamente conveniente, mas não resolve as causas estruturais do desemprego.

A grande questão é simples: se os estrangeiros são apresentados como a principal causa do desemprego, o que acontece quando eles deixam de estar presentes?

Se o desemprego continua elevado, a explicação precisa ser procurada noutro lugar.

Isso não significa que a imigração não tenha impacto sobre determinados sectores ou que não possa existir concorrência entre trabalhadores nacionais e estrangeiros.

Pode existir.

Mas reconhecer esse fenómeno é diferente de afirmar que os estrangeiros são responsáveis pela crise de emprego de um país inteiro.

O mercado de trabalho é muito maior e mais complexo.

Para reduzir verdadeiramente o desemprego, especialmente entre os jovens, a África do Sul precisa de políticas que estimulem a criação de empregos sustentáveis.

Isso inclui melhorar o ambiente empresarial, incentivar investimentos, fortalecer a educação técnica e profissional, apoiar pequenas e médias empresas e criar condições para que novos negócios possam surgir e crescer.

Também é fundamental combater práticas ilegais no mercado de trabalho. Empresas que exploram trabalhadores, independentemente da nacionalidade, devem ser responsabilizadas.

O trabalhador estrangeiro não deve ser colocado acima da lei.

Mas também não deve ser transformado no culpado automático pelos fracassos do sistema.

O caso sul-africano deveria servir de alerta para outros países africanos.

Quando uma sociedade enfrenta desemprego, pobreza e desigualdade, existe sempre a tentação de procurar um grupo para responsabilizar.

O estrangeiro pode tornar-se um alvo fácil porque é visível, diferente e, muitas vezes, possui menos capacidade para se defender politicamente.

Mas retirar esse grupo não significa necessariamente retirar o problema.

A pobreza permanece.

O desemprego permanece.

A desigualdade permanece.

E a falta de oportunidades permanece.

Por isso, a verdadeira pergunta não deveria ser apenas quantos estrangeiros estão no mercado de trabalho.

A pergunta deveria ser: por que razão a economia não está a criar empregos suficientes para a população que precisa deles?

Essa é uma questão muito mais difícil, mas também muito mais importante.

A África do Sul tem o direito de proteger as suas fronteiras e aplicar as suas leis. Ao mesmo tempo, precisa evitar que a política migratória seja utilizada como substituto para uma política económica eficaz.

No fim, o jovem sul-africano desempregado e o imigrante africano que procura sobreviver podem não ser adversários.

Podem ser duas pessoas a enfrentar o mesmo problema: uma economia que não consegue oferecer oportunidades suficientes.

Expulsar estrangeiros pode mudar quem está numa determinada rua ou mercado.

Mas não constrói fábricas, não cria empresas, não aumenta investimentos e não gera, por si só, milhões de empregos.

Xenofobia não é política económica. E quando um país escolhe o inimigo errado, pode expulsá-lo e descobrir, no dia seguinte, que o problema continua exactamente no mesmo lugar.

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