Kiev procura ampliar a pressão sobre Moscou com ataques de longo alcance, enquanto a Rússia mantém ofensivas contra cidades e infraestrutura ucranianas. A estratégia aumenta os custos do conflito, mas também levanta preocupações sobre uma possível escalada.
A guerra entre a Ucrânia e a Rússia entrou numa fase em que a distância deixou de representar uma barreira absoluta para as operações militares. Enquanto os combates continuam concentrados em diferentes setores da linha de frente, Kiev tem apostado cada vez mais em ataques de longo alcance contra alvos situados no interior do território russo, numa tentativa de atingir estruturas consideradas relevantes para a capacidade militar e logística de Moscou.A estratégia representa uma evolução importante na forma como a Ucrânia procura conduzir o conflito. Sem depender exclusivamente de grandes operações terrestres para recuperar áreas ocupadas, Kiev procura aumentar a pressão sobre a Rússia através de ataques capazes de alcançar depósitos, instalações militares, centros logísticos, infraestruturas relacionadas com a guerra e outros alvos estratégicos.
A lógica é relativamente simples: elevar o custo da continuidade do conflito.
Para as autoridades ucranianas, pressionar a Rússia não significa apenas enfrentar as forças russas diretamente na linha de contato. A intenção é também dificultar o abastecimento, comprometer estruturas utilizadas no esforço de guerra e demonstrar que a profundidade territorial russa não garante completa segurança diante da capacidade ucraniana de realizar ataques a grandes distâncias.
Durante grande parte do conflito, a atenção internacional esteve concentrada nas batalhas terrestres no leste e no sul da Ucrânia. No entanto, a utilização crescente de drones e outros sistemas de longo alcance modificou parcialmente esse cenário.
Ataques realizados a centenas de quilómetros da linha de frente passaram a ocupar espaço significativo na dinâmica da guerra. Para Kiev, essas operações podem funcionar como uma forma de compensar limitações existentes no campo de batalha convencional e criar novos problemas para o adversário.
A Ucrânia procura, sobretudo, atingir aquilo que considera essencial para a capacidade russa de sustentar operações militares. Infraestruturas de combustível, depósitos, instalações industriais ligadas à defesa, centros logísticos e equipamentos militares podem assumir importância estratégica quando o objetivo é reduzir a capacidade operacional do adversário.
A questão, porém, não é apenas militar.
Existe também uma dimensão política e psicológica.
Ao demonstrar que consegue atingir alvos no interior da Rússia, Kiev envia uma mensagem às autoridades e à população russas: a guerra não está necessariamente confinada às regiões próximas da fronteira ou aos territórios disputados.
A estratégia ucraniana parte da expectativa de que o aumento dos custos poderá, em algum momento, influenciar o cálculo político do Kremlin.
Se a guerra continuar a exigir recursos elevados, provocar perdas de equipamentos e obrigar a Rússia a reforçar a proteção de instalações estratégicas em diferentes regiões, Moscou poderá enfrentar uma pressão adicional para avaliar os custos e benefícios da continuidade das operações.
Entretanto, não existe garantia de que ataques de longo alcance conduzam automaticamente a negociações.
A reação pode ser exatamente a oposta.
Em vez de reduzir a intensidade do conflito, Moscou pode interpretar os ataques como uma ameaça direta à segurança nacional e responder com operações ainda mais intensas contra cidades, instalações energéticas e infraestrutura ucraniana.
Esse mecanismo cria um ciclo de ação e reação particularmente perigoso.
A Ucrânia realiza ataques de longo alcance contra alvos dentro da Rússia; a Rússia responde com novos ataques contra território ucraniano; Kiev procura ampliar novamente sua capacidade de resposta. O resultado pode ser uma guerra cada vez mais extensa em termos geográficos, mesmo sem uma mudança significativa na posição das tropas na linha de frente.
A estratégia não acontece num único sentido.
A Rússia continua a utilizar mísseis, drones e outras capacidades de ataque contra diferentes regiões da Ucrânia. Infraestruturas energéticas, instalações militares e centros urbanos continuam expostos à ameaça de ataques.
Para Moscou, atingir a infraestrutura ucraniana pode representar uma tentativa de reduzir a capacidade de funcionamento do país, pressionar a economia e dificultar a manutenção do esforço de guerra.
Assim, os dois lados procuram atingir não apenas as forças adversárias, mas também os sistemas que permitem sustentar uma guerra prolongada.
É nesse contexto que a chamada “guerra de profundidade” ganha importância.
O objetivo deixa de ser apenas conquistar ou defender determinado ponto do mapa. Passa também a ser a capacidade de atingir o sistema que mantém o adversário em condições de combater.
Outro elemento importante é o apoio militar fornecido à Ucrânia pelos Estados Unidos e por países europeus.
A assistência ocidental tem sido fundamental para ampliar as capacidades ucranianas em áreas como defesa aérea, inteligência, drones, artilharia e sistemas de ataque de maior alcance.
Ao mesmo tempo, os aliados de Kiev enfrentam um dilema político.
Por um lado, aumentar a capacidade ucraniana de atingir alvos militares pode ajudar o país a defender-se e a elevar os custos da ofensiva russa. Por outro, existe preocupação de que determinados ataques realizados em território russo possam provocar uma reação mais agressiva de Moscou.
É por isso que a questão do alcance das armas fornecidas à Ucrânia permanece politicamente sensível.
Quanto maior a capacidade de Kiev de atingir áreas distantes da linha de frente, maior também a discussão sobre os limites do apoio militar ocidental e sobre os riscos de uma escalada.
A principal preocupação associada aos ataques de longo alcance é a possibilidade de uma escalada gradual.
Um ataque pode inicialmente atingir uma instalação militar específica. Uma resposta pode atingir outra estrutura. Uma nova operação pode ampliar o número de alvos ou a distância alcançada.
Esse processo pode gerar uma dinâmica difícil de controlar.
Além disso, quanto mais frequentemente áreas do território russo forem atingidas, maior poderá ser a pressão política interna sobre o Kremlin para demonstrar capacidade de resposta.
Da mesma forma, ataques russos de grande intensidade contra cidades ucranianas podem aumentar a pressão sobre Kiev para intensificar suas próprias operações.
A guerra passa, assim, a ser influenciada não apenas pela situação militar no front, mas também pela capacidade de cada lado de suportar os custos econômicos, sociais e políticos do conflito.
A grande questão permanece sem resposta.
Os ataques de longo alcance podem aumentar a pressão sobre Moscou, mas não é possível afirmar que serão suficientes para obrigar a Rússia a negociar.
Historicamente, campanhas de pressão militar podem produzir resultados diferentes dependendo das circunstâncias políticas, económicas e militares. Em alguns casos, o aumento dos custos incentiva negociações. Em outros, provoca maior resistência e intensificação das operações.
No caso da guerra entre Rússia e Ucrânia, o resultado dependerá de vários fatores: situação no campo de batalha, capacidade de produção militar, apoio externo, condições económicas, perdas humanas, estabilidade política e disposição das partes para aceitar compromissos.
Por isso, a estratégia de Kiev deve ser observada não apenas pelo número de ataques realizados, mas pelos efeitos concretos que eles produzem sobre a capacidade russa de continuar a guerra e sobre as decisões políticas em Moscou.
O conflito está cada vez menos limitado às trincheiras.
A guerra moderna combina operações terrestres, ataques aéreos, drones, guerra eletrónica, inteligência, ciberoperações, pressão económica e ataques contra infraestruturas estratégicas.
Nesse cenário, a distância tornou-se relativa.
Para a Ucrânia, atingir alvos profundamente dentro da Rússia pode representar uma tentativa de reduzir a vantagem russa em recursos e capacidade militar. Para Moscou, a prioridade continua sendo manter a pressão sobre a Ucrânia e impedir que Kiev transforme ataques de longo alcance numa vantagem estratégica decisiva.
O resultado dessa disputa ainda é incerto.
O que parece evidente é que a guerra entrou numa fase em que a profundidade territorial já não oferece a mesma proteção de antes. Quanto maior for a capacidade de ambos os lados de atingir alvos distantes, maior será também a necessidade de avaliar cuidadosamente os riscos de cada operação.
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