Rui Cardoso critica Luís Neves e Chega exige demissão do ministro

  

O deputado do Chega Rui Cardoso criticou a actuação de Luís Neves durante o período em que esteve à frente da Polícia Judiciária (PJ), colocando novamente sob pressão o actual ministro da Administração Interna devido à relação com a empresa Construbarcelos, responsável por trabalhos realizados para a PJ e, posteriormente, numa propriedade privada de Neves.

A polémica, que se arrasta há várias semanas, envolve questões relacionadas com contratos públicos, obras particulares, a relação pessoal entre Luís Neves e o proprietário da empresa e, mais recentemente, o aparecimento de um atrelado apreendido pela Polícia Judiciária nas instalações da Construbarcelos.

Perante o conjunto de acontecimentos, o Chega mantém a exigência de demissão de Luís Neves e pretende avançar com uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) destinada a analisar a actuação do actual ministro durante o período em que dirigiu a PJ.

O Parlamento português confirma Rui Cardoso entre os deputados do Chega.

A origem da controvérsia está na relação entre Luís Neves e a Construbarcelos, empresa que realizou trabalhos para a Polícia Judiciária durante o período em que Neves ocupava o cargo de director nacional.

De acordo com informação divulgada pela imprensa portuguesa, a empresa realizou obras em instalações da PJ, incluindo projectos na Guarda e em Évora, tendo facturado cerca de dois milhões de euros em contratos com a instituição entre 2020 e 2025.

Paralelamente, a mesma empresa foi contratada para realizar trabalhos numa propriedade de Luís Neves em Odemira.

É precisamente esta coincidência que está no centro das críticas políticas.

A questão levantada não é apenas a existência dos contratos, mas sobretudo se a relação entre o então director da PJ e o empresário poderia gerar conflito de interesses ou dúvidas sobre a transparência dos procedimentos de contratação pública.

Uma análise publicada pelo ECO refere que a adjudicação de obras da PJ à empresa que posteriormente remodelou a propriedade familiar de Luís Neves levantou dúvidas sobre a regularidade dos contratos e sobre um eventual conflito de interesses.

Para o Chega, a sucessão de episódios justifica uma investigação parlamentar mais aprofundada.

O partido anunciou que pretende avançar com uma comissão parlamentar de inquérito aos mandatos de Luís Neves à frente da Polícia Judiciária, com o objectivo de analisar a sua actuação enquanto director da instituição.

A iniciativa foi anunciada por André Ventura para o início da próxima sessão legislativa, em Setembro.

A posição do partido é que o Parlamento deve esclarecer, entre outros aspectos, os contratos celebrados entre a PJ e a Construbarcelos, a relação entre o antigo director da polícia e o empresário e as circunstâncias em que determinados bens apreendidos pela PJ acabaram nas instalações da empresa.

A intenção de criar uma comissão de inquérito aumenta a pressão política sobre o Governo e sobre o próprio ministro, numa altura em que a polémica já ultrapassou a discussão sobre simples contratos de obras.

Um dos episódios que mais agravou a controvérsia foi o aparecimento, em Barcelos, de um atrelado que tinha sido apreendido pela Polícia Judiciária no âmbito de uma investigação relacionada com tráfico de droga.

O equipamento desapareceu das instalações da PJ no Seixal e acabou por ser encontrado junto a um camião da Construbarcelos, empresa ligada ao empreiteiro que também realizou trabalhos para a PJ e numa propriedade de Luís Neves.

A descoberta levou a Polícia Judiciária a abrir uma investigação para esclarecer as circunstâncias em que o atrelado foi movimentado.

Posteriormente, o Ministério Público também abriu um inquérito.

Segundo a RTP, a investigação encontrou indícios que podem apontar para um eventual crime de abuso de poder, tendo a informação sido remetida ao Procurador-Geral da República.

É importante, contudo, sublinhar que a existência de um inquérito ou de indícios sob investigação não significa que Luís Neves tenha sido condenado ou que esteja judicialmente comprovada a prática de qualquer crime.

A determinação de eventuais responsabilidades caberá às autoridades competentes.

Outro elemento que elevou a gravidade política do caso foi a informação de que a Polícia Judiciária não encontrou documentação que comprovasse a autorização para a deslocação do atrelado.

Segundo a RTP, a PJ procurou nos seus registos uma ordem ou documento que justificasse a retirada do equipamento, mas não encontrou o comprovativo. O Ministério Público recebeu a informação e abriu um inquérito coordenado pelo Departamento de Investigação e Acção Penal de Lisboa.

O facto de um bem apreendido no âmbito de uma investigação criminal ter saído das instalações onde estava guardado e ter aparecido posteriormente numa empresa ligada a um empresário próximo de um antigo responsável da PJ tornou-se, naturalmente, uma questão de elevado interesse político e institucional.

Para a oposição, é necessário esclarecer quem autorizou a movimentação, por que motivo o equipamento foi transferido e em que circunstâncias acabou nas instalações da empresa.

Os contratos entre a Construbarcelos e a Polícia Judiciária constituem outro dos pontos que o Chega pretende escrutinar.

Um contrato disponível no portal oficial de contratação pública mostra que a Polícia Judiciária celebrou, em 2022, um contrato com a ConstruBarcelos Unipessoal, Lda. para uma empreitada relacionada com instalações do Departamento de Investigação Criminal da Guarda.

O documento identifica Luís Neves, na qualidade de director nacional da PJ, como representante da instituição na celebração do contrato.

Este dado, por si só, não demonstra qualquer ilegalidade. Os contratos públicos devem ser analisados à luz dos procedimentos legais aplicáveis e das circunstâncias concretas de cada adjudicação.

É justamente essa análise que a comissão parlamentar pretendida pelo Chega poderá procurar fazer, caso venha a ser constituída.

Apesar da pressão política, Luís Neves tem rejeitado a existência de favorecimento e continua a defender a sua actuação.

A polémica, contudo, coloca o Governo de Luís Montenegro perante um problema político delicado.

O ministro da Administração Interna ocupou anteriormente um dos cargos mais importantes na investigação criminal portuguesa, dirigindo a Polícia Judiciária, e assumiu depois funções governamentais.

As dúvidas sobre decisões tomadas durante o período em que esteve na PJ têm, por isso, uma dimensão que ultrapassa a sua situação pessoal.

Está também em causa a percepção pública sobre a independência, transparência e credibilidade das instituições responsáveis pelo combate ao crime.

O que pretende esclarecer a comissão de inquérito?

Caso avance, uma comissão parlamentar poderá analisar uma série de questões relacionadas com o período em que Luís Neves dirigiu a PJ.

Entre os principais pontos de interesse estarão os contratos celebrados com a Construbarcelos, os procedimentos utilizados nas adjudicações, os trabalhos realizados nas instalações da PJ e a relação entre os contratos públicos e os trabalhos privados realizados para o então director.

Também poderá ser analisado o episódio do atrelado apreendido, nomeadamente a cadeia de decisões que levou à sua saída do local onde estava guardado e ao seu aparecimento nas instalações da empresa.

Outro aspecto relevante será perceber se existiam regras internas específicas para a movimentação de bens apreendidos e quem tinha competência para autorizar esse tipo de procedimento.

A comissão, se constituída, não substituirá a investigação judicial. O seu objectivo será essencialmente político e parlamentar: recolher informação, ouvir responsáveis e apurar responsabilidades políticas e administrativas.

Uma crise que já ultrapassa o ministro

A polémica em torno de Luís Neves está a transformar-se num dos casos mais sensíveis para o Governo português neste período.

O caso combina contratação pública, relações pessoais, obras particulares, bens apreendidos numa investigação criminal e suspeitas que estão a ser analisadas pelas autoridades judiciais.

A abertura de inquéritos pelo Ministério Público e pela própria Polícia Judiciária demonstra que existem questões que as autoridades consideram suficientemente relevantes para serem esclarecidas.

Politicamente, o Chega procura aproveitar o momento para aumentar a pressão sobre o Governo e exigir explicações.

A oposição terá agora de demonstrar que a comissão parlamentar pode contribuir efectivamente para esclarecer os factos, enquanto o Executivo terá de garantir que todas as dúvidas são respondidas com transparência.

Próximo capítulo será no Parlamento

A discussão deverá ganhar novo impulso com o avanço da comissão parlamentar de inquérito pretendida pelo Chega.

Rui Cardoso e os restantes deputados do partido defendem que a actuação de Luís Neves enquanto director da PJ deve ser escrutinada e que o ministro deve abandonar o cargo.

Do outro lado, o Governo terá de decidir até onde está disposto a ir na prestação de esclarecimentos sobre os contratos e sobre os acontecimentos que envolvem a Construbarcelos.

Enquanto isso, os processos de investigação continuam a decorrer.

Até que as investigações sejam concluídas, qualquer eventual responsabilidade criminal terá de ser determinada pelas autoridades judiciais competentes.

O caso, no entanto, já produziu consequências políticas significativas e colocou Luís Neves perante uma das maiores crises desde que assumiu a pasta da Administração Interna.


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